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Ditadura da informação

last modified 2009-02-20 12:43

Revista Flash n°137

Escutei certa vez, sem muito dar ouvidos, de que os jornalistas costumam esconder a ignorância sobre quase tudo o que escrevem.  Como venho de uma família de muitos jornalistas, e tenho a oportunidade de trabalhar com outros tantos, achei um julgamento severo, quase como aquele que atestam a predileção dos advogados pela mentira.

 

Mas no recente caso da quebra ilegal do sigilo bancário de Francenildo Pereira, o caseiro que testemunhava ser Palloci o “chefe” de uma quadrilha que assaltava o Estado brasileiro, desviando valores incomensuráveis de empresas públicas que eram distribuídos numa misteriosa mansão, freqüentada por garotas de programa, chamou-me a atenção uma denúncia grave contra os jornalistas de todos os periódicos e revistas mais importantes do país.

 

É que, em todos os artigos que li, fazia-se menção a um “assessor palaciano”, ou um assessor do ministério da fazenda”, ou ainda, “um assessor do Min. Palloci”, que teria, em tese, divulgado o extrato do caseiro para a revista “Época” que procurava fazer o jogo do ministro e tentava desqualificar o denunciante.

Pois bem, foi Diogo Maynardi, articulista da “Veja” quem pela primeira vez citou o nome do assessor.  Trata-se de Marcelo Netto, assessor de imprensa do Min. Palloci   Segundo Maynardi, todos sabiam, mas preferiram ocultar o nome de Marcello Neto.

 

Acontece que a trajetória de Marcelo Netto é conhecida. Foi preso e torturado na ditadura militar, passando dois anos e meio preso nos cárceres do DOI CODI, antigo aparelho repressivo da ditadura por causa de sua militância de esquerda.  É pessoa doce afável e de voz mansa, sendo portanto um homem agradável de se ter ao lado em conversas.   Foi diretor, por muitos anos do jornalismo da rede Globo de televisão, ex-marido de Ana Paula Padrão, a quem revelou no cenário nacional, quindando-a à condição de âncora do Jornal Nacional.

 

É portanto, uma espécie de pessoa com grande influência no meio jornalístico e querido por muitos.   O nome dele somente foi revelado e passou a freqüentar os jornais, depois de Diogo Maynardi, ter escrito sua coluna, no melhor estilo de um gazeteiro de início do século, à gritas, com título “MARCELO NETTO, MARCELO NETTO, o nome dele é MARCELO NETTO.

 

Ao depor na Polícia federal, saiu abatido, mas não foi indiciado, pois ainda que tivesse revelado à “Época”  a informação, não foi ele o responsável pela quebra de sigilo bancário, pois não teria poderes dentro da instituição bancária, coisa que somente o Ministro ou Pres. Do Banco público poderiam fazer.

 

Quando o texto do A.I 5, medida inconstitucional que inaugurou os super poderes da ditadura militar foi apresentado ao Presidente Castelo Branco em 1.968, este teria indagado sobre a falta de escrúpulos de seus assessores. Quando então o ex-Min. Jarbas passarinho teria dito : - “AS FAVAS COM OS ESCRUPÚLOS SENHOR PRESIDENTE”.  E o pior período de retrocesso do direito no Brasil teria se inaugurado, fazendo dentre muitas vítimas Marcelo Netto preso em meados de 1.973, com base no AI 5.

 

Os jornais informaram que ao ser alertado por um assessor do Min. Thomas Bastos de que a quebra de sigilo era ilegal, Marcelo Netto teria dito: “QUERRA É QUERRA”.

 

Se for verdade, Marcelo Netto teria se esquecido da dor que sentira quando suas garantias de direitos individuais lhe foram negadas por um estado totalitário.  Se for mentira, começaria a dar razão áquele amigo que me advertira de que os jornalistas escondem a ignorância sobre quase tudo o que escrevem.

 

 

Ricardo Azevedo Leitão


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